O pior aconteceu. Naquela madrugada quente e chuvosa, onde dois seres falavam a dois mil e novecentos quilómetros por hora, um deles perdeu um dente. Não chorou, nem entrou em pânico, apenas olhou-o bem, inspecionou bem a podridão que testemunhara já muitos fármacos e vergonhas, e deitou-o ao lixo, fazendo até um esforço para não o lançar ao ar, e o comer.
Os dois seres não se conheciam, mas falavam sobre todos os tormentos e nações que já tinham galgado..tão bonitos, ali encolhidos, desvastando escrúpulos, comendo do próprio sal que jorravam..
O dente, ao ver-se no lixo, desejou nunca ter vivido, e até chorou, mas os dois seres só queriam aglomerar todo o conhecimento e fazer um intercambio. Loucos. Poucos. Deitaram-se para o sal escorrer melhor - um não suportava a saudade, o outro desejava nunca a ter sentido...tal como o dente não desejava ter vivido

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