sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não chove água, apenas memórias

Pois estava, lá estava ela no corredor de uma  Fnac, passeando os olhos, que passeavam livros sobre algo que não se conseguia adivinhar sequer. Também não interessava, interessava mais saber como seria possível ser-se irritantemente tão belo - aquela beleza que desvasta por completo qualquer réstia de estima, corpo hirto, anca nem assim nem assado, tornozelo perfeito, mãos desgraçadamente delicadas, e um olhar vazio,  daqueles que se quer espreitar lá para dentro e não se consegue!! Odiava aquela beleza, dava vómitos e calafrios...
Ele - que de beleza já farto estaria, mas não tanto  - disse-lhe: "Olha como ela olha para ti. Agora sentou-se no sofá, olha, olha-a, ela não nos está a ver, podes olhar!" (a mocita, envergonhadita, lá olhou, mas não queria acreditar,e também lhe irritava a beleza). "Para que é que queres que olhe para ela? Eu já a vi, interessa-me, mas é bela". " Olha como ela também te olha" . "Não quero saber, é bela, irrita-me, e pegou num manual sobre fotografia digital, isso irrita-me, sabes bem que certas modinhas me irritam." "Não importa isso, olha-a!! Ela quer-te , de certeza". "Menos".
Ela continuou no corredor, agora já sentada no sofá, perna cruzada, bela, mas suja de beleza, aquela sujidade que jamais sai, nem com quilos de porcaria, é uma beleza imune. E ali ficou, com seu manual, não sei se o lia, ou se apenas o segurava para não estar só entre nós.


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