sexta-feira, 31 de maio de 2013

Cantiga da embriaguez...

Estou embriagada do teu não existir -  um elixir tóxico, sepultado na garganta, no peito, nas coxas e na vagina do  meu corpo. A vodka ainda sobe ao nariz, o sexo sobe às têmporas deste crânio que já quase nada absorve..apenas memórias.
 
Estou embriagada. Foleira. Dizzy. Enjoada.
 
Os ditos homens rodopiam em volta de uma chama enganadora, que parece que brilha, que atrai, que seduz, que provoca..mas nada de isso faz...somente dança. Danço. Copo com corpo, cigarro com sede, corpo com som, som com gesto de quem vai para a cama...dançar.
 
Os ditos homens parecem pedras de altar, mortas, somente adoradas porque as catalogaram, lhes deram um estatuto..mas tento falar com elas e elas são só pedras. E que espero eu de pedras? Nada. Só o seu ocupar de espaço, às vezes pesadas de transportar se necessário.
 
Estou embriagada com minha existência, que se deita numa cama de livros, rascunhos, migalhas de bolachas, e um vómito de serpente, de rei posto, de asco.

Já é dia..estou perdida entre o sono e a magia. Combatem...veremos quem ganha.



sexta-feira, 24 de maio de 2013

 Olhos acesos na penumbra do meu ser, que de tanto não ser, ilumina um vazio do querer ser. O nada também vigora, também se adora, também se reconhece que de vez em quando apetece. Depois da profundidade e da profunda idade deste statement, eu confesso que me resigno à condição de velha. Velha, antiga, usada, mascavada, incinerada numa conversa de esplanada.
Deixo a coroa alba cair e rendo-me.
Velha desgraçada...um simples errozito de cálculo e destrois seis pedaços de corpo teu. Paga. Humilha-te. Rasga-te...e não voltes.


domingo, 19 de maio de 2013

Dor de cotovelo

Eu pensei que já tinha visto de tudo - seres imateriais apenas com olhos verdes, um psiquiatra que desabafa com os pacientes, um homem que pensava que excitava a namorada por imitar os seus gestos, o Blitz a sugerir as 10 melhores canções para fazer amor, um corretor de olheiras durar 2 anos, Espanha retroceder no tempo e retirar a disciplina de filosofia como obrigatória e substituí-la por religião católica (século XXI)...mas não..nunca tinha visto sofrer do cotovelo, ficar com ele dorido, esfolado, de tanto roçar..não sei bem onde..fenómeno estranho, mas que dói lá isso dói... é isso e o calo debaixo da língua...



domingo, 12 de maio de 2013

Conformismos


Às vezes vivo sozinha. Dou por mim na cama, com dores, querendo abrir um simples frasco de um medicamento e a não conseguir. Abro a boca em jeito de chamar alguém, mas abafo o som, pois ninguém virá. Não o tomo. Passados 10 minutos sinto fome, mas pouco há que comer na cozinha, o supermercado ainda fica a 2 bairros de distância e chove e com estas dores não me movo, ou quando o faço, gemo; a cozinha também fica longe para a alcançar, mas ainda invisto uma ou duas vezes quando a fome se sente na cama..desta vez fico-me por aqui, faço de conta que o sentir fome é psicológico. Adormeço.

(Sonhei que estava numa festa com muita gente, a música pedia-me que bailasse, os movimentos em oito das pessoas faziam-se sorrir e quase que voei.)

No dia seguinte continuo a viver sozinha. Tocam a campainha de manhã, seguido de um bater de porta com punho, seguido do meu silêncio..não sei quem é, tenho medo de saber quem é, embora curiosa, sempre; mas as dores persistem e se me levanto, quando chegar à porta já a pessoa se foi, o que pode ser bom mas também pode ser mau. Acabo por me levantar, a custo, arrastando os ossos até onde os possa lavar. Vejo o espelho, a medo mas curiosa, sempre. Continuo a viver sozinha, às vezes.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Vai Leonor..

Como é que um simples "posso ajudá-la?" se transforma num conto libertino, meio melado com sabor a medo e a leite ? muito simples: sex messages system. Generalizo o termo, pois a história é longa. Vai Leonor pela verdura, vai formosa e não segura. (versão século XXI)
 
- Posso ajudá-la com as malas?
- Não carece, obrigada, é o senhor o condutor do autocarro?
- Sou sim, está em boas mãos.
 
Passados 800 kms já o condutor era outro. Leonor troca mensagens a medo, pois persona não identificada deseja-lhe uma excelente viagem. A princípio pensou em quem poderia ser, mas a verdade é que podiam ser tantos...tantos desamores a desejar-lhe uma boa viajem, como se de um prenúncio ou ameaça de acidente, que apareceria no telejornal, se tratasse.
 
- Não ficou curiosa?
- A curiosidade matou o gato.
- Se um dia ficar curiosa, eu digo-lhe.

Vai Leonor pela auto-estrada, vai formosa mas desconfiada.
 
Passados 8 dias, vem de volta sua eminência cansada de corpo e de mente afiada, reencontra o condutor de autocarro bondoso, que a leva ao destino sem cobrar...pelo menos dinheiro.
 
Vai Leonor pelas escada, vai formosa e destapada.
 
E passado um mês trocam mensagens marcando pontos e encontros, camas, hotéis, terminais, cais, dias de embarque e desembarque...tudo sem os respetivos cônjuges saberem.



sexta-feira, 3 de maio de 2013