Contrariamente ao que se possa pensar, tanto dói amar sem ser amado como ser amado sem amar, seja lá o que queira dizer este verbo - amar - já sei, desde que o Homem se levantou ainda não conseguiu definir "amor".
Depois de ler suas palavras, as lágrimas caiam cara abaixo de Madalena, que por sua vez não estava arrependida. Não tinha amado um Jesus, mas também não tinha sido um Lúcifer. Tinha sido um homem na sua vida, um valente homem, o que a fez voltar a um estado embrionário quando tiveram a primeira conversa, já lá vão uns anos. Ler aquele "amo-te" pica, fere, come, desdorme, e ela mantinha-se desperta..mas não esperta. Deitou-se na cama, que era o seu habitat natural há décadas, com a face voltada para o teto. Imaginou que morreu. Depois imaginou que acordou da morte. Depois pegou num arco de cabelo que repousava a seu lado, nos lençóis, e sentiu-lhe os dentes com os dedos - colocou-o como se fossem uns óculos, à boa maneira das crianças de 3 anos; depois colocou-o no pescoço, mas era tremendamente desconfortável; finalmente deixou-o descansar sobre o seu rosto, com o dito arco em C apoiado na testa e no queixo, e imaginou que era uma mulher lua e nua.
Manobras de distração impotentes, porque o "amo-te" seguia em sinos descompassados, ecoava por toda a sua existência, castigava-a por um fio muito fino que divide a culpa da frieza. Arco para o chão, roupa no corpo, um fechar de olhos, um tapar de ouvidos, um gemido de mimo, um arrepio de purgatório. Foi amada e isso doeu..e deverá dar mais dores durante uns anos.













