Abro os olhos e penso se escrevo na primeira ou na terceira pessoa. Já deu para ver, não é?
Aqueci os cotonetes junto do portátil, peguei neles e atirei-os para o chão, de modo a que se espalhassem pelo soalho desta minha enfermaria satélite, de onde me saem todos os dias os desejos e os pavores.
Se isto diário fosse, eu contava a historieta (uma música, olhos colados nos cotonetes, vozes que me chamam, blá blá blá), mas como não me parece ser o caso, prossigo.
Os desejos e os pavores - os carneiros e os doutores - os maqueiros e os louvores - a máquina em cima do meu corpo vibra in excelsis, a preceito!
Uma cara coberta me espreita na janela, eu ignoro por instantes, mas os olhos já estão colados aos meus, e quando dou conta, todo o corpo colado ao meu, com suor gélido, um odor nauseabundo, que me faz contrair os músculos faciais e os ombros. Mal me movo, espero que quando abra os olhos só me sinta assustada por ter sido um sonho, mas sempre que os abro estão lá - os olhos, o cheiro, um peso morto, um morto pesado, vivo, animado, com letras nas orelhas...sinto impulso de ir vomitar mas detenho o vómito para ganhar forças para empurrar o corpo. Enquanto olho para os cotonetes no soalho, penso se já morri ou se ainda falta muito para sentir aquilo. Aquilo. Aquela coisa, aquilo que eu odeio.

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